Miscigenado, multicolorido e de uma riqueza cultural vasta, o Brasil é um país preconceituoso, social e racialmente. Somos todos mesclados, com mais de uma influência racial em nosso dna, porém ainda assim, há espaço para o preconceito. Preconceito esse que é informal, escondido, mas que existe.
Existe na Câmara dos Deputados, em Brasília, um projeto de lei que prevê estabelecimento de cotas para negros nas empresas. Assim como o projeto que estabelece cota nas universidades, o projeto que esta em votação estabelece que um determinado número de vagas numa empresa deve ser preenchida por pessoas que se auto denominem negras.
É fato que no Brasil brancos são melhor remunerados que negros, homens são melhor remunerados que mulheres, e que nesse jogo, a mulher negra brasileira é a mais prejudicada. É fato que entre os desempregados, independentemente do gênero, os negros são maioria. Porém, mesmo sendo um país preconceituoso (o preconceito existe, mas todos escondem, talvez por uma prática de boa vizinhança, afinal, todos nós somos misturados, caboclos), nossa sociedade consegue se relacionar de uma forma cordial. O preconceito, no Brasil, é informal.
O projeto de lei em questão é um risco, pois pode formalizar o preconceito existente, que pela característica de nosso povo, está escondido. Seria uma espécie de Apartheid, que pode desencadear uma série de programas e cotas raciais e sociais. Já tentou-se implantar vagões só para mulheres nos trens urbanos, e felizmente não deu certo. Nosso povo precisa deixar de aceitar que políticos escondam a sujeira embaixo do tapete! Não bastam soluções paliativas, é necessário que se busque a solução para o problema em sua causa, e não no efeito.
Sem dúvidas é necessário corrigir a desigualdade no Brasil, mas não é com cotas, para que negros ou brancos sejam beneficiados, e sim com ensino de qualidade desde a infância, para que todos cheguem em pé de igualdade numa disputa, seja ela por uma vaga na faculdade ou por uma vaga em uma empresa. Existem porcos, aproveitadores das condições que são as latas de sardinha em que nos transportamos? Sim, existem. Mas é com punição exemplar a esses vermes e um transporte mais digno que vamos consertar isso, e não criando áreas exclusivas para homens e/ou mulheres.
Onde fica a responsabilidade do governo em investir com a verba proveniente dos muitos impostos que pagamos? Estabelecer cotas, significa dizer a uma instituição privada, que ela tem que corrigir o que a incompetência histórica do governo não pode fazer. Ao contrário de investir em educação, saúde, saneamento básico, transporte e lazer para o povo, o Executivo só aumenta seus gastos operacionais, com mais e mais despesas. O Senado, com 10.000 funcionários para atender 81 Senadores, gasta em um ano, o suficiente para construir escolas, postos de saúde, redes de esgoto, etc., em locais onde não há isso. E ainda temos que engolir Sarney’s como figuras que parecem uma praga, enraizadas nas Instituições que regem nosso país.
Por quê não nos livramos dessa gente? Por quê não usamos nosso dever de voto (direito é quando se pode optar entre fazer ou não) pra expurgar essa corja de políticos sem ética e sem pudor com o dinheiro público? Por quê não usamos nosso dever de voto para eleger pessoas que tenham vivido as situações de discriminação social e racial, afim de que se consertem pela raiz os erros de nossa sociedade?
No meio disso tudo ficamos nós, cristãos, escondidos e omissos. Antes, omissos porquê segundo uma lenda doutrinária, não podíamos nos misturar. Hoje, existem muitos de nós se arriscando na política, e manchando nossa reputação, como se não bastassem as perseguições consequentes de nossa forma de encarar as insanidades sociais. Como Igreja, nosso papel deveria ser ajudar a desfazer todas essas mazelas com obras sociais, como a Igreja Primitiva o fez. Existem Comunidades exercendo seu papel, mas existem uma infinidade de outras Comunidades se fechando em uma bolha de “Adoração” e desviando o olhar do que nos cerca.
Já passou da hora de lembrarmos que somos brasileiros, e que um País melhor não se faz apenas com orações e louvor, mas com atitudes. “Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé. Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta.” -Tiago 2:18,26. Temos chance de fazer diferente. Vamos fazer diferente e acertar, ou vamos nos conformar que “o mundo jaz no maligno”?

Dias atrás visitei a Pinacoteca do Estado para conferir a Exposição Matisse: Hoje, e essa visita fazia parte de um programa de estágio do curso de Comunicação Social que frequento. Como fazia parte da matéria tratada em sala, a visita foi discutida e um ponto da discussão me chamou a atenção de forma diferente da discussão acadêmica. No debate, falava-se sobre a falta de acesso à cultura e educação da maioria dos brasileiros.
Como não poderia deixar de ser, passei a analisar o meio cristão sob a ótica da falta de acesso à informação no meio cristão, que de forma geral é formado por gente simples. Mas, o ponto que me preocupou de sobremaneira foi a falta de acesso ao conhecimento bíblico, uma vez que falta de acesso cultural atinge a todos, independentemente do credo.
Na Pinacoteca, além das obras de Matisse, visitei o acervo do museu e não pude deixar de admirar as obras, esculturas, fotografias e arquitetura do lugar. Num devaneio, deslizei aquele instante adaptando a beleza escondida por trás do conhecimento embutido naquele ambiente, e numa metáfora me perguntei como seria belo ver nossos líderes protestantes e neo pentecostais mergulhando a fundo em ambientes de conhecimento bíblico, e transmitindo conceitos livres de religiosidade ao povo. Eu sei que não é fácil entender o motivo de uma exposição de arte inspirar tal pensamento, mas creio que o ambiente ajudou.
Falo tudo isso pra dizer que muito do que errôneamente é pregado hoje é fruto de distorções causadas por uma miopia intelectual, agravada pela sede de destaque das pessoas que lideram. Uma igreja hoje não basta ser bem estruturada, tem que estar cheia, com gente disputando lugares. Atrai-se pessoas oferecendo milagres e não a convivência com quem opera milagres. A Igreja Primitiva, que deveria ser modelo na prática e não na teoria, agia exatamente de forma oposta a essa prática que vemos tão insistantemente em nossas igrejas: agia-se primeiro numa demonstração do amor e doutrina cristã e como consequência pregava-se o evangelho. Hoje igrejas atraem fiéis com a promessa do milagre, seja ele financeiro, familiar ou fisiológico, com condicionais de que se participe de campanhas, ou de que seja frequentador assíduo, numa indução ao erro por parte dessas pessoas.
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” João 8:32. Sem conhecimento, cada vez mais pessoas caem no conceito religioso/vicioso e o que vemos é um igreja protestante cada vez mais nivelada por baixo. Líderes tão rasos de conhecimento, que tentam espiar por cima dos rodapés da sociedade brasileira na ponta dos pés. Falo isso englobando conhecimento bíblico e cultural, pois para pregar a uma sociedade tão miscigenada como a brasileira, que esconde seus preconceitos nos porões mais escuros da alma, é necessário que se tenha um equilíbrio de saber, apoiado numa tênue e frágil linha divisória que aponte o certo e o errado, o ético e o abominável. A falta de conhecimento a respeito da verdade, e o que ela é, tem arrastado o protestantismo para longe do que a Bíblia nos ensina.
Onde está a verdade para que eu seja livre?

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